E se em vez de projetar um bairro sustentável, as cidades investissem
em revitalizações dentro do seu perímetro urbano? Na segunda reportagem
da série, “Se o meu bairro fosse verde”, o Morar Bem mostra as
adaptações em quatro bairros pelo mundo. Em Mission Bay, São Francisco,
Califórnia, a vida dos moradores mudou muito desde que a área começou a
ser remodelada para se tornar sustentável. Carros já quase não fazem
parte de seu universo. Assim como em Vauban, Freiburg, na Alemanha, onde
parte da arquitetura de uma antiga base militar foi aproveitada para a
construção de um novo modelo de moradia, com a coexistência de locais de
trabalho e casas para classes sociais variadas. Em comum, os dois
projetos tiveram uma ampla participação de moradores em sua elaboração.
Exatamente como deve ser, dizem especialistas. No Brasil, ainda não
temos projetos como esses.
Bairros adaptados, boa solução sustentável
Nada
de se deslocar por quase 20 quilômetros, como acontece em bairros
construídos do zero por falta de áreas livres no miolo das cidades. Nos
projetos de remodelação, áreas subutilizadas no centro urbano ganham
atributos sustentáveis: afinal, contribuem para reduzir a emissão do
dióxido de carbono dos automóveis. A participação da comunidade no
desenvolvimento da nova planta e a adaptação da arquitetura antiga são
outras características de bairros em reconstrução.
Mas, nessa empreitada para reduzir o impacto ambiental, nem tudo são flores, aponta a arquiteta Viviane Cunha:
—
Adaptar um bairro existente pode ser mais difícil do que construí-lo do
zero. Há coisas mais complicadas para se fazer e leva mais tempo. Se
for para derrubar tudo, por exemplo, acaba a sustentabilidade.
Gerente do projeto Mission Bay, da Prefeitura de São Francisco, Kelley Kahn discorda:
—
Construir novos bairros é uma das soluções. Mas para que toda São
Francisco se torne sustentável é preciso também pensar em remodelações.
MISSION BAY:
Ir a pé para o trabalho, a escola, as compras. Aproveitar parques
públicos para descansar e curtir a natureza. Fazer os trajetos a pé ou
de bicicleta. É assim a vida em Mission Bay, São Francisco, Califórnia,
desde a remodelação do bairro iniciada em 1998. Os carros já quase não
fazem parte de seu universo. E todos os prédios construídos desde então
seguem os preceitos exigidos pelo Green Building Council (GBC), que
certifica edificações sustentáveis.
Apontado pelo governo da
Califórnia como modelo de desenvolvimento sustentável, Mission Bay
chegou lá graças a ampla participação da comunidade em todas as
decisões: o que ainda hoje acontece em reuniões mensais, diz Kelley:
— Foram anos de discussões com a comunidade antes mesmo de iniciarmos o projeto.
O
resultado foi o surgimento de um novo bairro que ganhou um grande
circuito de ciclovias, além de uma linha de metrô integrando Mission Bay
ao resto de São Francisco, e outra de trem interligando o bairro ao
Vale do Silício. Três mil das seis mil unidades residenciais já estão
prontas: 900 das quais, reservadas à habitação social. Com apenas 45% do
projeto concluído (há 15 anos de renovações pela frente), o local
também já conta com parques e áreas de lazer e esporte públicas e uma
nova biblioteca, além de um campus da Universidade da Califórnia, que já
tem sete de seus prédios prontos, inclusive um dedicado a pesquisas
científicas. E estão previstos ainda, conclui Kelly, complexo
hospitalar, hotel e escola pública:
— Terminado, Mission Bay será uma movimentada extensão de São Francisco.
VAUBAN:
Na Alemanha, terra da Mercedes-Benz, a vida num lugar quase sem carros
pode parecer inusitada. Mas é exatamente o que acontece em Vauban, a
três quilômetros do centro histórico de Freiburg. Erguido, entre 1994 e
2004, em uma antiga base militar francesa, a partir de uma comissão
formada por moradores das regiões vizinhas, o bairro proíbe a circulação
de automóveis Na maior parte das ruas. O objetivo? Reduzir emissão de
dióxido de carbono.
— A qualidade de vida é grande: ninguém sofre o impacto do tráfego — diz a moradora Heidrun Walter.
Mas
nem todo mundo consegue se adaptar a esta rotina, que veta garagens em
partes residenciais e parqueamento nas calçadas. Quem quiser esse
bel-prazer, deve guardar o carro num dos dois estacionamentos na entrada
do bairro.
— Quem quer ter seu carro em frente de casa não se adapta a Vauban e acaba deixando o bairro — continua Heidrun.
Debruçado
sobre conceitos que reduzem o impacto ambiental, Vauban teve parte da
arquitetura da antiga base reaproveitada como residência para estudantes
e restaurantes. Nos terrenos baldios, foram erguidas casas com
coletores solares e revestimentos para melhorar o conforto
termoacústico. Ainda assim, um dos envolvidos na remodelação, o
engenheiro Andreas Delleske, prefere não apontar Vauban como exemplo
sustentável:
— Prefiro dizer que conseguimos produzir mais energia
do que consumimos. Vauban é um bairro normal, talvez esteja um pouco
melhor informado.
Já para a professora de engenharia da UFRJ, Ângela Maria Gabriella Rossi, Vauban é um bom exemplo de sustentabilidade urbana.
—
Além de participação da comunidade e apoio do governo desde sua
elaboração, o bairro tem mistura de classes e diversificação
arquitetônica.
VÄSTRA HAMNEN: Malha urbana com
ampla rede cicloviária, transporte a gás natural, ruas só para
pedestres, sistema de armazenamento de água quente do mar durante o
verão para aquecer habitações no inverno, conversão de resíduos urbanos
em biogás, além de prédios planejados de acordo com a melhor orientação
do sol e dos ventos. Assim é Västra Hamnen, que já conta com 4,5 mil
habitantes. Quem passa pela região, situada a poucos quilômetros do
Centro histórico de Malmö, na Suécia, dificilmente percebe que ali
funcionava um grande estaleiro.
Tudo começou em 2001, com a
exposição Bo01 — Cidades do Futuro, que apresentava uma intervenção
permanente segundo os princípios sustentáveis propostos pela Prefeitura
de Malmö. O evento pôs abaixo parte das edificações existentes e
construiu prédios com 500 apartamentos, com coletores solares e uma
bomba de aquecimento, que, com ajuda da energia gerada pelo parque
eólico Lilligrund capta água e aquece as residências.
— O bairro
usa 100% de energia renovável produzida no local a partir de uma
variedade de fontes: solar, eólica, marítima e de um aquífero
(reservatório da água natural) — explica Lotta Hansson, assistente do
projeto, que, feito com a participação da comunidade, deve ser concluído
em 2027.
GRAND LARGE: Bairro industrial, onde
até 1987 funcionavam os estaleiros de Dunquerque, na França, Grand Large
viu o movimento de trabalhadores desaparecer depois que o então
presidente Jacques Chirac decidiu encerrar as atividades do local. Hoje,
novo burburinho movimenta suas ruas: crianças brincando pelos parques e
praças e moradores passeando de bicicleta ou a pé. Tanta diferença é
resultado de um planejamento feito pela prefeitura.
A ideia é
tornar sustentável toda Dunquerque — cidade reconstruída na década de
1950, depois de ter sido ocupada por nazistas entre 1940 e 1945, e que
se tornou exemplo típico dos grandes centros urbanos da época, com
avenidas largas e tráfego intenso. Para mudar o cenário, foi criado um
plano urbanístico que visa ao crescimento para a periferia. Nesse
contexto, nasceu Grand Large. De frente para o mar, estão as casas que
se tornaram cartão postal da cidade. No estilo flamenco, ganharam muitas
janelas e chaminé, para garantir maior ventilação natural. Todos os
imóveis construídos a partir de 2005 — quando a reconstrução começou —,
aliás, têm por característica a eficiência energética e o reduzido
consumo de água.
Outro ponto forte: o mix de classes sociais,
etárias e tipologias dos imóveis. Há de pequenos estúdios para jovens a
apartamentos para famílias. Além disso, 40% dos imóveis são destinados à
habitação social. Quando estiver concluído, em dez anos, o bairro
deverá ter de 800 a mil unidades residenciais. Hoje, são 250.
Segundo
alguns moradores, contudo, há problemas relacionados ao trânsito.
Apesar de ter sido pensado para privilegiar pedestres e ciclistas, os
prédios já construídos têm garagens pequenas para bicicletas e duas
vagas de carro por apartamento. Além disso, o plano da prefeitura para
tirar o trânsito do Centro de Dunquerque inclui a construção de uma via
circular que contornará toda a cidade, passando por Grand Large.
A
quantidade de veículos nas ruas, como se vê, é um dos principais
desafios das cidades no caminho da sustentabilidade. Semana que vem,
veremos como isso pode dificultar a transformação de um bairro bem
carioca num modelo sustentável.